MEUS HERÓIS TAMBÉM MORRERAM DE OVERDOSE
Ídolos, mitos, lendas, deuses e demônios, o universo do Rock 'N' Roll é cercado por nomes influentes na música a partir de meados dos anos 50. Particularmente esse é um tema que me atrai bastante e me sinto tentado a entender como o Rock, esse estilo sócio-político-estético-cultural de música, se desenvolveu e principalmente o impacto que ele causa no comportamento da juventude. Esse é o fundamento da Arqueologia Musical para todo garimpeiro de música como eu.
Se por um lado o Rock nasceu com um contexto inocente, o passar do tempo o transformou e ícones que escreveram seus nomes em sua história cuidaram bem pra que isso acontecesse. Bons garotos? Jamais.
Aos 27 anos se foram Jimi Hendrix por overdose de medicamentos, Janis Joplin por overdose de heroína, Jim Morrison (The Doors) por overdose, Brian Jones (Rolling Stones) por overdose e Kurt Kobain (Nirvana), este último sem comentários. Vale lembrar qua a vida desregrada e autodestrutiva também levou à morte outros ícones como Elvis Presley, John Bonhan (Led Zeppelin), Sid vicious (Sex Pistols), Dee Dee Ramone (Ramones), Bon Scott (AC/DC), Johnny Thunders (New York Dolls), entre tantos outros.
Mesmo entre os que permanecem on the road, não é raro encontrar um desajustado que teve ou ainda tem problemas com drogas ou álcool. Eric Clapton teve seus problemas com heróina, Keith Richards (Rolling Stones) que segundo a lenda cheirou as cinzas do crematório do próprio pai teve seus maus dias com heroína também. Até os 'inocentes' Beatles não fugiram desses desregramentos. John "Peace and Love" Lennon merece aqui alguma atenção. Pregador da paz mundial, idolatrado por várias gerações e um ícone como um dos maiores pensadores do século que passou, investiu pesado nas drogas no fim dos anos 60 e boa parte dos 70 também, principalmente na fase psicodélica do Rock, ou lisérgica como alguns gostam de chamar esse período. Além do cânhamo e acido lisérgico, nosso querido Lennon teve seus dias de decadência, absolutamente cold turkey com a heroína. Junkies. Boa parte da História do Rock foi escrita por junkies. E por que não dizer o melhores capítulos dessa história?
Nossos amados ídolos são desajustados, marginais com históricos de brigas, acidentes de carros, episódios em hotéis. Rebeldes. São tão simplesmente rebeldes. Maus garotos? Jamais.
A conduta out-stage de cada um não interferiu para que esses rebeldes nos presenteassem com antológicas noites de êxtase. Com Murray The K no rádio, Ed Sullivan Show na TV ou mesmo em estádios lotados nossos jovens heróis trouxeram a alegria para várias gerações de jovens sedentos de diversão. Melodias que fizeram história, letras que mudaram comportamentos, canções que foram trilha sonora de pessoas comuns, músicas que influenciaram a cultura.
Esses rebeldes levaram às últimas instâncias a liberdade. E o que Cazuza tem a ver com isso? Cazuza é mais um rebelde que pregou a liberdade. Liberdade não apenas dos grilhões que o sistema usa para nos prender, mas a liberdade de nossa alma, de nossos próprios preconceitos e limitações. A revisão de nossos conceitos, ainda que isso custe viver à margem da sociedade.

Cazuza, aquele garoto que ia mudar o mundo, viveu cada um de seus dias à sua maneira, tinha fome de vida porque o tempo não pára. Ele simplesmente quis todo amor que houver nessa vida e foi dessa forma que nosso maior abandonado nos trouxe suas boas novas. Disse não à sociedade conservadora, aos caboclos querendo ser ingleses. Marginal sim, sem dúvidas, mas antes de tudo um ser sensível, autêntico e com coragem para em sua luta enfrentar o conformismo social sem se esconder por trás da capa da hipocrisia e não fazer nada para as mudanças de comportamento acontecessem. Cazuza, ídolo? Não, herói.
Bem como todos os grande ídolos, mitos, lendas e deuses do Rock, Cazuza pôs em poesia e melodia seu modo de vida. E mesmo quando seu tesão passou a ser risco de vida, o seu sex and drugs não perdeu o Rock 'N' Roll. Deixou como legado a lição de que não são o stabilishment, o conservadorismo nem a hipocrisia os nossos salvadores. Não é a repressão que mudará nosso percurso e nem nossas vidas. Uma sociedade se constrói com confrontos, com revoluções e revoluções só acontecem com Liberdade.
BLUES DA PIEDADE
(Cazuza e Frejat)
Agora eu vou cantar pros miseráveis
Que vagam pelo mundo derrotados
Pra essas sementes mal plantadas
Que já nascem com cara de abortadas
Pras pessoas de alma bem pequena
Remoendo pequenos problemas
Querendo sempre aquilo que não têm
Pra quem vê a luz
Mas não ilumina suas minicertezas
Vive contando dinheiro
E não muda quando é lua cheia
Pra quem não sabe amar
Fica esperando
Alguém que caiba no seu sonho
Como varizes que vão aumentando
Como insetos em volta da lâmpada
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Pra essa gente careta e covarde
Vamos pedir piedade
Senhor, piedade
Lhes dê grandeza e um pouco de coragem
Quero cantar só para as pessoas fracas
Que estão no mundo e perderam a viagem
Quero cantar o blues
Com o pastor e o bumbo na praça
Vamos pedir piedade
Pois há um incêndio sob a chuva rala
Somos iguais em desgraça
Vamos cantar o blues da piedade
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